Pierre “Fatumbi” Verger…

“A única conclusão que posso tirar lançando um olhar sobre os anos já vividos por mim, é que se nunca soube muito bem o que eu queria, soube ao contrário, o que eu não queria.
Deste fato, recusando fazer o que eu não gostava, a minha vida tomou sem que me desse conta, uma certa forma.”
(Pierre “Fatumbi” Verger) 

Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902 — Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi.

Jean Gaumy (1948)

Nascido em Pontaillac (França), Gaumy focou  sua câmera nas realidades mais duras. Foi o primeiro fotógrafo a mostras os presídios de seu país (1976). Em 1977 ingressou na agência Magnum, sobressaindo-se com reportagens sobre a vida em barcos pesqueiros e, em 1986, sobre as mulheres nos acampamentos da milícia iraniana. Entre outros prêmios, em 2001 recebeu o Nadar. Sua obra foi exposta no Museu marítimo Nacional e no Centro Beaubourg de Paris, e na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Publicou vários livros, entre os quais se destacam L´hopital (1976), Le livre dês tempêtes (2001) e Pleine mer (2002). Como cineasta, produziu os documentários La Boucane (1984), Jean-Jacques (1987), Marcel, prêtre (1994) e, em vídeo, Sous-marin (2006).

Jean Gaumy documentou com maestria a solidão dos pescadores. Suas fotografias registram as condições extremas de vida dos homens de mar e as espetaculares cenas protagonizadas pelas inclemências do tempo. Gaumy chegou a embarcar em um submarino nuclear e passar longos meses no ambiente hermético, nas profundezas do oceano.

Constantine Manos (1934)

Constantine Manos (1934)

Filho de imigrantes gregos, Manos nasceu e foi educado nos Estados Unidos. Demonstrou precoce interesse pela fotografia e aos 19 anos já foi contratado como fotógrafo oficial da Orquestra Sinfônica de Boston. Após o serviço militar, mudou-se para Nova York, onde trabalhou nas revistas Enquirer, Life e Look.

Seu livro Portrait of a symphony (1961), sobre a orquestra de Boston, rendeu-lhe reconhecimento profissional.  Autor de conteúdo social, suas fotografia ilustram a vida e a cultura das camadas populares dos Estados Unidos.

Após uma temporada a trabalho na cosmopolita Nova York, o norte-americano Constantine Manos, filho de emigrantes gregos, viajou para a terra de seus pais a fim de conhecer suas origens. Entre 1961 e 1964, Manos percorreu a península e os arquipélagos da Grécia com sua câmera a tiracolo, captando imagens, cujas composições ordenadas e limpas lembram a Henri Cartier-Bresson. O resiltado foi A Greek portfólio (1972), seu livro mais conhecido, premiado no Recontres Internationales de l Photographie, tradicional festival de fotografia de Arles, na França, e na Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha. Manos registrou o diálogo permanente entre o ser humano e seu meio, especialmente o mar, além de representar a viagem como símbolo da vida.

Elliot Erwitt…

Filho de Emigrantes russos, Elliott Erwitt nasceu em Paris em 1928 e viveu em Milão. Em 1939, sua família se mudou para os Estados Unidos, fugindo do fascismo. Elio Romano Ervitz (seu verdadeiro nome) se dedicou no início da carreira ao retrato. E, 1953, ingressou na agência Magnum como colaborador, convidado por Robert Capa. O fotógrafo presidiu a agência entre 1966 e 1969.


São mundialmente conhecidas suas séries monográficas sobre cães. No entanto, outra de suas grandes paixões é contemplar e retratar pessoas observando arte. Fruto de uma predileção, nasceu seus magnífico e original trabalho Museum watching, publicado pela primeira vez em 1999.

Munido de ironia, Erwitt pôs em evidência, mediante suas fotografia, o clima majestoso que permeia a arte entre alguns setores da sociedade de consumo. “As pessoas visitam museus por motivos que não têm nada a ver com o que os museus contêm. São lugares onde se exerce a sociabilidade” – escreveu o fotógrafo. A crítica desses hábitos “de consumo” da arte é uma denúncia de um modelo cultural.

Foi fotógrafo da Casa Branca e colaborou com as revistas Look, Life e Holiday. Ao longo de sua carreira, Erwitt realizou numerosos trabalhos em moda e publicidade. Também dirigiu documentários e filmes para cinema, além de produzir programas para TV.

Pierre Verger…

Pierre Verger
(Paris, 1902 – Salvador, 1996)

Pierre Verger nasceu em Paris, no dia quatro de novembro de 1902. Desfrutando de boa situação financeira, ele levou uma vida convencional para as pessoas de sua classe social até a idade de 30 anos, ainda que discordasse dos valores que vigoravam nesse ambiente. O ano de 1932 foi decisivo em sua vida: aprendeu um ofício – a fotografia – e descobriu uma paixão – as viagens.

Após aprender as técnicas básicas com o amigo Pierre Boucher, conseguiu a sua primeira Rolleiflex e, com o falecimento de sua mãe, veio a coragem para se tornar um viajante solitário. Ela era seu último parente vivo, a quem não queria magoar com a opção por uma vida errante e não-conformista.

De dezembro de 1932 até agosto de 1946, foram quase 14 anos consecutivos de viagens ao redor do mundo, sobrevivendo exclusivamente da fotografia. Verger negociava suas fotos com jornais, agências e centros de pesquisa. Fotografou para empresas e até trocou seus serviços por transporte. Paris tornou-se uma base, um lugar onde revia amigos – os surrealistas ligados a Prévert e os antropólogos do Museu do Trocadero – e fazia contatos para novas viagens. Trabalhou para as melhores publicações da época, mas como nunca almejou a fama, estava sempre de partida: “A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes”.

As coisas começaram a mudar no dia em que Verger desembarcou na Bahia. Em 1946, enquanto a Europa vivia o pós-guerra, em Salvador, tudo era tranqüilidade. Foi logo seduzido pela hospitalidade e riqueza cultural que encontrou na cidade e acabou ficando. Como fazia em todos os lugares onde esteve, preferia a companhia do povo, os lugares mais simples. Os negros monopolizavam a cidade e também a sua atenção. Além de personagens das suas fotos, tornaram-se seus amigos, cujas vidas Verger foi buscando conhecer com detalhe. Quando descobriu o candomblé, acreditou ter encontrado a fonte da vitalidade do povo baiano e se tornou um estudioso do culto aos orixás. Esse interesse pela religiosidade de origem africana lhe rendeu uma bolsa para estudar rituais na África, para onde partiu em 1948.

Foi na África que Verger viveu o seu renascimento, recebendo o nome de Fatumbi, “nascido de novo graças ao Ifá”, em 1953. A intimidade com a religião, que tinha começado na Bahia, facilitou o seu contato com sacerdotes, autoridades e acabou sendo iniciado como babalaô – um adivinho através do jogo do Ifá, com acesso às tradições orais dos iorubás. Além da iniciação religiosa, Verger começou nessa mesma época um novo ofício, o de pesquisador. O Instituto Francês da África Negra (IFAN) não se contentou com os dois mil negativos apresentados como resultado da sua pesquisa fotográfica e solicitou que ele escrevesse sobre o que tinha visto. A contragosto, Verger obedeceu. Depois, acabou encantando-se com o universo da pesquisa e não parou nunca mais.

Nômade, Verger nunca deixou de ser, mesmo tendo encontrado um rumo. A história, costumes e, principalmente, a religião praticada pelos povos iorubás e seus descendentes, na África Ocidental e na Bahia, passaram a ser os temas centrais de suas pesquisas e sua obra. Ele passou a viver como um mensageiro entre esses dois lugares: transportando informações, mensagens, objetos e presentes. Como colaborador e pesquisador visitante de várias universidades, conseguiu ir transformando suas pesquisas em artigos, comunicações, livros. Em 1960, comprou a casa da Vila América. No final dos anos 70, ele parou de fotografar e fez suas últimas viagens de pesquisa à África.

Em seus últimos anos de vida, a grande preocupação de Verger passou a ser disponibilizar as suas pesquisas a um número maior de pessoas e garantir a sobrevivência do seu acervo. Na década de 80, a Editora Corrupio cuidou das primeiras publicações no Brasil. Em 1988, Verger criou a Fundação Pierre Verger (FPV), da qual era doador, mantenedor e presidente, assumindo assim a transformação da sua própria casa num centro de pesquisa. Em fevereiro de 1996, Verger faleceu, deixando à FPV a tarefa de prosseguir com o seu trabalho.

Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Narração e Apresentação: Gilberto Gil
Produção: Conspiração Filmes, Gegê Produções, GNT Globosat

Câmara Viajante…

CÂMARA VIAJANTE
2007, 20 min, Cor, 35mm, Brasil
Diretor: Joe Pimentel
Elenco: Belo, Chico Alagoano, Dedé da Neusa, Isaías, Júlio Santos
Sinopse: Documentário que retrata o universo e o ofício dos fotógrafos populares que atuam nas festas, feiras e romarias do interior nordestino. A visão do artista do retrato pintado, suas técnicas e seu trabalho.
Ficha Técnica
Produção Trio Filmes Roteiro Joe Pimentel, Isabela Veras

A Câmara Viajante
Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta – ainda esplendor – da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã – quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: “Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?”
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.
(Carlos Drummond Andrade)